O conto da semana - 1
Histórias para ler. Quem gostar, gostou... quem não gostar... amigos como dantes!

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O conto da semana - 2

 

O conto da semana - 3

 

O conto da semana - 4

 

LAVAR AS MÃOS

-Lavaste as mãos? - perguntou o pai, pondo o ar mais façanhudo que conseguia.

-Acabei agora mesmo de as lavar... - mentiu ela, escondendo atrás das costas as mãos imundas.

O pai continuou a pôr a mesa. Lídia olhou disfarçadamente para as mãos. Estavam sujíssimas! Para além de quase pretas do lápis com que estivera a desenhar, tinham manchas de tinta de escrever. E agora? A irmã olhou para aquele horror e abriu a boca.

- Cala-te! - pediu Lídia - Eu disse ao pai que as tinha lavado...

Meteu-as nos bolsos das calças. O que não era, de todo, uma solução. A mesa estava quase posta. O molho de tomate do espaguete cheirava que era um regalo e ela estava cheia de fome. A mãe devia estar a chegar. Iam sentar-se à mesa e como diabo ia comer com as mãos nos bolsos? A irmã, apercebendo-se do dilema em que ela estava, ria-se baixinho.

- Paiii! - perguntou Lídia - Posso ir lá acima? Esqueci-me de desligar a televisão?

Aproveitava e ia à casa de banho, lavar as mãos.

- Eu apaguei-a, não te preocupes. - informou a irmã, com a ingenuidade inoportuna dos cinco anos. Lídia pensou seriamente em matá-la. Mas, para isso teria de tirar as mãos dos bolsos e lá se ia a mentira...

O carro da mãe parou à porta.

- A mãe chegou. - anunciou o pai - Sofia, leva o queijo ralado para a mesa enquanto eu parto o pão, está bem?

A pequenita foi ao frigorífico buscar o frasco do queijo, toda contente por ajudar, como os grandes.

Lídia tinha a cabeça a trabalhar a mil à hora. Estava cheia de fome, adorava o esparguete com molho de tomate que o pai fazia e estavam a minutos de ir para a mesa. Já tinha sido apanhada com as mãos imundas duas ou três vezes e nem sabia o que seria pior: se uma estalada ou um discurso de três quartos de hora sobre os micróbios e os perigos de não lavar as mãos...

- Paiiii! Posso... - embatucou - posso...

O pai estava parado, com o tacho do molho de tomate fumegante nas mãos, à espera. Ouviu-se o barulho da chave da mãe na porta.

- Mas afinal o que é que tu queres? - o pai acabava de pousar o tacho na mesa e soprava os dedos escaldados.

- Queria... queria... queria pedir...

- Olá família! - a mãe entrou, carregada de papéis que ameaçavam cair. - Ajuda aqui, Lídocas! Vão-se espalhar os testes todos do oitavo, valham-me os santos, os anjos e demais corte celeste...!

Lídia tirou as mãos dos bolsos e correu a agarrar o monte de papelada que parecia ter ganho vida e escorregava pelos braços da mãe. O pai, horrorizado, olhou-lhe para as mãos negras de sujidade, grafite de lápis e tinta azul. Ia dizer qualquer coisa, talvez «Estás de castigo para o resto da vida!» ou «Uma semana sem televisão!» ou, pior ainda, «Duas semanas sem desenhar!». Ia haver sermão, missa cantada, confissão e penitência. Lídia prometeu a si mesma que nunca mais mentia, nem para salvar a vida. Pelo menos nas semanas mais próximas que era o que as suas promessas costumavam durar. Apelou mentalmente a todas as forças, ocultas ou não, que conhecia. Mas a mãe salvou-a:

-Lídia, querida, vai pôr os testes no escritório, vais? E trazes-me as pantufas à casa de banho do meu quarto? Estes malvados sapatos estão-me aqui o roer o calo do dedo mindinho...

«Nunca tinha sido tão bom fazer um recado à mãe!» - pensava ela, aliviada, lavando as mãos antes de regressar à sala.

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