JÚLIO DINIS UMA VIDA BREVE
Aos catorze anos, entrou para a Academia Politécnica do Porto, onde se dedicou aos estudos de Botânica, Zoologia, Química, Física e Matemática. Em 1856, ingressou na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, tendo concluído o curso de Medicina, cinco anos depois, com a apresentação da tese “Da importância dos Estudos Meteorológicos para a Medicina e Especialmente de Suas Aplicações ao Ramo Cirúrgico”. Entretanto, Júlio Dinis começara a estabelecer contactos com alguns escritores, principalmente Soares de Passos, e a publicar alguns dos seus escritos em periódicos como A Grinalda e O Jornal do Comércio. São de 1856 as suas primeiras obras – as peças de teatro Bolo Quente e O Casamento da Condessa de Vila Maior – que apesar do seu pouco interesse literário terão contribuído para os bem conseguidos diálogos dos romances e para certas cenas de confrontação das personagens em conflito. Em 1858, com 19 anos, escreve o conto "Justiça de Sua Majestade", incluído, posteriormente, na 3ª edição dos Serões da Província, um dos primeiros trabalhos que editou.
Apesar do sucesso alcançado nos vários concursos e da eficiência com que trabalhava na Escola Médico-Cirúrgica, Júlio Dinis preocupava-se, antes de tudo, com a produção literária, o que não o impediu de ser promovido a lente, em Junho de 1867.
...Uma obra eterna... ...uma obra para a eternidade... Se pretendêssemos caracterizar resumidamente a vida e a obra do escritor novecentista que dá nome à nossa escola, não poderíamos deixar de referir as palavras acima transcritas, que Eça lhe dedicou, no momento da sua morte, em As Farpas. Existência breve, dividida entre a escrita, a Escola Médica do Porto e os tratamentos à tuberculose que acabou por vitimá-lo, Júlio Dinis é hoje frequentemente evocado como o escritor que “escreveu de leve”, expressão de sentido pejorativo, uma vez que encerra uma crítica à sua visão benevolente e optimista das relações sociais do Portugal do seu tempo e às soluções fáceis que apresenta para os conflitos sociais. Importa,
no entanto, contextualizar as palavras de Eça de Queirós para percebermos
o alcance da sua caracterização. Ao contrário de uma crítica, a
“leveza” que o autor de Os Maias aponta a Júlio Dinis encerra
o reconhecimento de uma obra que não se fez de uma retórica excessiva
ou de narrativas complexas, mas sim de um cruzamento constante entre
um olhar atento sobre a realidade do seu tempo e um desejo quase utópico
de disfarçar o lado mais negro dessa realidade com uma visão poética
e idealizada:
É o próprio Júlio Dinis que, em Ideias que me ocorrem (1869), nos revela a sua concepção do romance como “uma arte essencialmente popular”, com uma função educativa, didáctica e ética. Os romances devem, por isso, servir “para andarem na mão de todos, para o uso quotidiano, para educarem, civilizarem e doutrinarem as massas.” Para isso, é necessário que as massas se revejam nas personagens, nos espaços, nos diálogos e nas intrigas, vendo neles “reflexos de si próprios, dos seus pensamentos e paixões e avivando memórias de passados episódios de sua vida.” E o leitor só se identificará com o romance se nele encontrar “verdade nas descrições, verdade nos caracteres, verdade na evolução das paixões e verdade enfim nos efeitos que resultam do encontro de determinados caracteres e determinadas paixões”. O
fundo ideológico dos romances de Júlio Dinis é constituído pela
época de estabilização social e política que sucedeu ao período
das guerras civis. Na sua obra, encontramos a apologia ao progresso
concebido sob formas burguesas, concretizado na Bolsa do Porto (Uma
Família Inglesa), na actividade dos novos proprietários agrícolas,
saídos da extinção dos direitos senhoriais (As Pupilas do Senhor
Reitor, Os Fidalgos da Casa Mourisca), e materializado nas
vias de comunicação. O professor primário, o médico e o padre liberal
são os heróis típicos desta sociedade visionária, coerente com a
natureza humana:
As narrativas de Júlio Dinis constituem uma visão realista da complexidade da vida social portuguesa do seu tempo. Os conflitos que eclodem entre as personagens correspondem aos conflitos ideológicos ou de classe que elas representam, retratando uma realidade em mudança devido à ascensão dos novos valores burgueses. Já a solução que preconiza para esses antagonismos é optimista e utopicamente romântica, pois são as superiores qualidades das personagens que possibilitam a sua transição de uma classe/estatuto social para outra(o) sem criar rupturas, ultrapassando conflitos previamente existentes. Num período histórico marcado por profundas mutações sociais, Júlio Dinis acredita com idealismo romântico acentuado, e numa atitude pedagógica e moralizadora que cariz realista, na capacidade de auto-regeneração do Homem, na possibilidade da mudança individual em articulação dialéctica com as alterações sociais. No romance Os Fidalgos da Casa Mourisca, o casamento entre Berta e Jorge, ou melhor, entre a burguesia rural em expansão e a aristocracia rural decadente, simboliza o ideal social de Júlio Dinis – a fusão, numa espécie de nova aristocracia, do trabalho, da riqueza, da ilustração e da nobreza:
“Os
romances de Júlio Dinis revelam-nos um vivo e comovente desejo de harmonização
universal, uma veemente vontade de conciliação dos contrários de
que o autor, utópica e romanticamente, acredita ser expressão a sociedade
liberal em vias de construção ou sedimentação. [...] Se a solução
encontrada por Júlio Dinis para os conflitos que avassalavam o mundo
seu contemporâneo é romântica, utópica e optimista e não foi confirmada
pelas forças da História, esse facto não invalida a parte de verdade
humana e social da sua obra, assim como o forte contributo para a criação
do romance moderno entre nós.” (Á. M. Machado (1996). Dicionário
da Literatura Portuguesa. p.168) E foi sobretudo como um dos fundadores do romance moderno que Júlio Dinis ganhou o seu espaço na História da Literatura Portuguesa. Apontado como um autor de transição entre o Romantismo e o Realismo, o autor portuense conseguiu uma aliança perfeita entre estas duas correntes. Do Romantismo, herdou uma visão idealista e maniqueísta da realidade, uma imagem idílica da vida rural, a concepção de personagens excepcionais, uma visão angelical e deserotizada da mulher, a mitificação do trabalho como fonte de todo o bem, as soluções harmoniosas para os conflitos e a emergência de um narrador que dialoga com o leitor, aconselhando-o, explicando as acções das personagens, julgando. A sua concepção do romance, inquestionavelmente moderna, avança já alguns pressupostos do romance realista. Para além da função moralizadora e didáctica já apontada anteriomente, constatamos a sua preferência por temáticas contemporâneas e a apreensão da sociedade como palco de conflitos, o recurso a personagens-tipo, criando uma galeria de tipos sociais da época, o uso, nos diálogos, de uma linguagem própria da oralidade e adequada ao perfil das personagens, a perseguição do efeito de real e a valorização da componente descritiva indispensável ao processamento da “análise dos caracteres”, da criação de atmosferas, da crítica social, fundamentais para a criação de uma lógica causalista.
Aliás, a estrutura habitual dos seus romances assenta na narração de histórias de gente simples e boa, de caracteres que vivem confrontos motivados sobretudo por diferenças de estatuto social e de histórias de amores dificultados pelos diferentes estatutos sociais, mas posteriormente superadas e terminando em casamentos felizes que resolvem de forma optimista e harmoniosa as suas divergências, superando os desequilíbrios de classe, educação ou temperamento. Num estilo leve e sóbrio, original na literatura de então, descreveu de forma ímpar quadros domésticos e maioritariamente rurais (à excepção de Uma Família Inglesa), de que os contos de Serões da Província (1870) são o melhor exemplo. E é precisamente num espaço rural que decorre a intriga de As Pupilas do Senhor Reitor, o seu primeiro romance, publicado em 1867, depois de, no ano anterior, ter sido publicado em folhetins no Jornal do Porto. Foi um sucesso imediato, suscitando críticas muito favoráveis. Alexandre Herculano chamou-lhe mesmo o primeiro romance do século e considerou Dinis o maior talento da geração moderna. Outra prova desse sucesso é o facto de o romance ter sido de imediato adaptado ao teatro, numa versão de Ernesto Biester. Por razões de saúde, Júlio Dinis instalara-se em casa da sua tia Rosa Zagalo Gomes Coelho, que vivia no Largo dos Campos, em Ovar. Foi durante essa estadia que contactou de perto com o modo de vida rural, recriando esse ambiente em As Pupilas do Senhor Reitor e nos seus romances campesinos (por exemplo, a personagem da tia Doroteia de A Morgadinha dos Canaviais foi inspirada na sua tia). No seu primeiro romance, Júlio Dinis faz uma reconstituição pitoresca e algo poética do viver no campo e do desequilíbrio provocado pela chegada de Daniel, o filho de José das Dornas regressado à aldeia após concluir os estudos de Medicina. É evidente a influência do Vigário de Wakefield, de Goldsmith, e de O Pároco da Aldeia, de Herculano, sobretudo na caracterização de personagens, de ambientes rurais e da bondade do reitor e de João Semana, o velho médico, que servem na perfeição o propósito de pregar uma moralização de costumes pela vida rural e pela influência de um clero convertido ao liberalismo. As personagens rurais são apresentadas no seu viver quotidiano, marcado pelas estações do ano, pelas tarefas agrícolas e pelas festas das colheitas e religiosas. A maledicência, a beatice, a hipocrisia e o conservadorismo das populações rurais são vistos com alguma benevolência, descrevendo-se tipos sorridentemente caricaturais que giram na órbita de Margarida e Clara, desajustadas do meio campesino. Daniel, o jovem de mentalidade citadina, impulsivo e mulherengo, relaciona-se com elas num enredo amoroso triangular que gera boatos e uma situação-limite que leva Margarida, sensata e moralmente superior, a sacrificar a sua reputação para salvar a da irmã e evitar o conflito entre os irmãos Pedro e Daniel. No final do romance, o desequilíbrio provocado pelo regresso de Daniel será resolvido pelo seu casamento com Margarida, que o “regenera”, tornando-o melhor e convertendo-o às virtudes da vida rural. Sobre
As Pupilas do Senhor Reitor, escreveu Eça de Queirós, em As
Farpas: “Um
só livro seu, um romance, fez palpitar fortemente as curiosidades simpáticas
– As Pupilas do Senhor Reitor. Esse livro fresco, quase idílico,
aberto sobre largos fundos de verdura, habitado por criações delicadas
e vivas – surpreendeu. Era um livro real, aparecendo no meio de uma
literatura artificial, com uma simplicidade verdadeira, (...). Era um
livro onde se ia respirar.” Também os ambientes sociais são descritos ao pormenor (a Bolsa do Porto, o Café Águia d’Ouro e o Baile), apresentando cenas reveladoras do mundo dos negócios, das diversões e convívios da alta burguesia de origem e hábitos civilizacionais ingleses, da pequena burguesia e dos assalariados, contribuindo para um retrato realista da vida portuense, sugerido já no subtítulo “Cenas da Vida do Porto”, em que o enredo sentimental serve, em grande parte, de pretexto. Em 1870, é publicada a colectânea Serões da Província, constituída por contos e novelas, entretanto saídos, em folhetins, no Jornal do Porto. Nas suas narrativas, encontramos, de novo, flagrantes poéticos da vida rural e quadros tocantes das vivências domésticas.
Também
postumamente foram publicadas as obras Poesias (1873), Inéditos
e Esparsos (1910), Cartas e Esboços Literários (1940) e
Teatro Inédito (3 volumes, 1946/47). Senhor de uma linguagem fluida, elegante e sem grandes excessos, Júlio Dinis captou e descreveu de forma elegante ambientes e atmosferas e retratou a psicologia de personagens que, na sua aparente leveza e singeleza, simbolizam um certo Portugal social, político e religioso. Simultaneamente,
deixou na sua obra um desejo (por muitos visto como ingénuo) de harmonia
social, que conciliasse os valores da velha aristocracia decadente com
os valores burgueses, representantes de um novo espírito saído da
revolução liberal, símbolo de prosperidade e de modernidade para
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