JOSÉ SARAMAGO

José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, concelho da Golegã, no dia 16 de Novembro de 1922, tendo ido viver para Lisboa com os pais ainda não tinha três anos. A sua vida não foi fácil. Não pôde continuar os estudos devido às dificuldades económicas da família, tendo  de começar a trabalhar ainda muito jovem. O seu primeiro emprego foi como serralheiro mecânico, depois desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor, jornalista. Trabalhou durante doze anos numa editora, exerceu funções de direcção literária e de produção. Colaborou como crítico literário na revista “Seara Nova”. Publicou o seu primeiro livro, “Terra do Pecado”, em 1947. Em 1972 e 1973 fez parte da redacção do jornal “Diário de Lisboa”, foi comentador político, tendo também coordenado, durante alguns meses, o suplemento cultural deste jornal. Pertenceu à primeira Direcção da Associação Portuguesa de Escritores. De Abril a Novembro de 1975, foi director adjunto do “Diário de Notícias”. A partir de 1976, dedicou-se exclusivamente ao trabalho literário. A sua bibliografia é extensa, destacando-se "Levantado do Chão" (1980), "Memorial do Convento" (1982), "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984) e "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991) entre muitas outras. Para o público mais jovem, publicou ainda “A Maior Flor do Mundo”, em 2001.Na sua brilhante carreira, recebeu inúmeros prémios em Portugal, em Itália e em Inglaterra. Recebeu ainda o Prémio Camões, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores em 1995 e, em 1998, na Suécia, o Prémio Nobel da Literatura.



Já não existe a casa em que nasci, mas esse facto é-me indiferente porque não guardo qualquer lembrança de ter vivido nela. Também desapareceu num montão de escombros a outra, aquela que durante dez ou doze anos foi o lar supremo, o mais íntimo e profundo, a pobríssima morada dos meus avós maternos, Josefa e Jerónimo se chamavam, esse mágico casulo onde sei que se geraram as metamorfoses decisivas da criança e do adolescente. Essa perda, porém, há muito tempo que deixou de me causar sofrimento porque, pelo poder reconstrutor da memória, posso levantar em cada instante as suas paredes brancas, plantar a oliveira que dava sombra à entrada, abrir e fechar o postigo da porta e a cancela do quintal onde um dia vi uma pequena cobra enroscada, entrar nas pocilgas para ver mamar os bácoros, ir à cozinha e deitar do cântaro para o púcaro de esmalte esborcelado a água que pela milésima vez me matará a sede daquele Verão. Então digo à minha avó: «Avó, vou dar por aí uma volta.» Ela diz «Vai, vai», mas não me recomenda que tenha cuidado, nesse tempo os adultos tinham mais confiança nos pequenos a quem educavam. Meto um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforge, pego num pau para o caso de ter de me defender de um mau encontro canino, e saio para o campo. Não tenho muito por onde escolher: ou o rio, e a quase inextricável vegetação que lhe cobre e protege as margens, ou os olivais e os duros restolhos do trigo já ceifado, ou a densa mata de tramagueiras, faias, freixos e choupos que ladeia o Tejo para jusante, depois do ponto de confluência com o Almonda, ou, enfim, na direcção do norte, a uns cinco ou seis quilómetros da aldeia, o Paul do Boquilobo, um lago, um pântano, uma alverca que o criador das paisagens se tinha esquecido de levar para o paraíso. Não havia muito por onde escolher, é certo, mas, para a criança melancólica, para o adolescente contemplativo e não raro triste, estas eram as quatro partes em que o universo se dividia, se não foi cada uma delas o universo inteiro.”


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