O PENSAMENTO DE JOSÉ HERCULANO PIRES EM REVISTA (Seleção de Sergio F. Aleixo) Kardec partiu da pesquisa científica, originando-se desta a Ciência Espírita; desenvolveu, a seguir, a interpretação dos resultados da pesquisa, que resultou na Filosofia Espírita; tirou, depois, as conclusões morais da concepção filosófica, que levaram naturalmente à Religião Espírita. É por isso que o Espiritismo se apresenta como Doutrina de tríplice aspecto. (Introdução à Filosofia Espírita. Cap. II, item 2.) CIÊNCIA ESPÍRITA A chamada revolução cartesiana foi precursora da revolução espírita. A ciência admirável de Descartes é a mesma ciência espiritual de Kardec, ainda em desenvolvimento, por muito tempo, em nosso planeta. (O Espírito e o Tempo. Introdução Antropológica ao Espiritismo. 3.ª parte, cap. II.) A teoria espírita — teoria e não hipótese, pois esta já provou a sua validade através de todas as pesquisas possíveis — pode ser resumida neste axioma doutrinário: "Não há efeito inteligente sem causa inteligente, e a grandeza do efeito corresponde à grandeza da causa". (Agonia das Religiões, cap. V.) Da mesma maneira por que os métodos da experimentação física não serviram à pesquisa psicológica ou sociológica, os métodos científicos positivos são insuficientes para a investigação espírita. A Ciência Espírita tem os seus próprios métodos. E tanto isso é necessário e cientificamente válido, que, atualmente, a física se desdobra em física nuclear ou parafísica, e a psicologia em parapsicologia. (O Espírito e o Tempo. Introdução Antropológica ao Espiritismo. 3.ª Parte, cap. II, item 2.) Allan Kardec foi dotado de uma coragem assustadora, que lhe permitiu enfrentar com a insolência dos gênios todas as forças culturais da época. Foi para contestá-lo e estigmatizá-lo como inimigo das ciências, comparsa dos bruxos medievais, restaurador das superstições, que cientistas como Crookes, Schrenk-Notzing, Richet e outros resolveram atender aos apelos angustiados das academias e associações científicas. Dessa atitude corajosa resultou o escândalo das batalhas que romperam o impasse científico, revelando que o bruxo agia com o conhecimento e a segurança dos mais reputados cientistas. Era impossível desmenti-lo ou derrotá-lo. Kardec rompera definitivamente as barreiras dos pressupostos para firmar as bases lógicas e experimentais dos princípios da ciência admirável dos sonhos de Descartes e das previsões de Francis Bacon. A metodologia científica, minuciosa e mesquinha, desdobrou-se no campo do paranormal e aprofundou-se na pesquisa do inteligível com audácia platônica. Kardec não se perdeu como Wundt, Werner e Fechener, no sensível das pesquisas epidérmicas do limiar das sensações. Percebeu logo que os métodos não podiam ser aplicados a fenômenos extrafísicos e estabeleceu o princípio da adequação do método ao objeto (...). Se não foi colocado oficialmente entre os pioneiros da ciência, foi porque a sua posição era de rebeldia consciente e declarada contra o materialismo científico (...). Mas a audácia de Kardec o levou à vitória (...), provara que as ciências não deviam temer os fantasmas, mas enfrentá-los e explicá-los. Nenhuma autoridade era mais elevada, para ele, do que a realidade dos fatos comprováveis pela experiência científica e objetiva das pesquisas. Os cientistas mais audaciosos aprenderam com ele a superar os condicionamentos do formalismo acadêmico e a enfrentar o mundo como ele é. (Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas. Introdução.) A Astronáutica alarga os horizontes do cosmo e a física descobre a antimatéria, provando a existência dos mundos interpenetrados, que tiram o mito do outro mundo do plano imaginário e o integram na realidade acessível à investigação. (...) A descoberta científica da antimatéria seria suficiente para estourar todas as estruturas religiosas do cristianismo dominante. Os próprios cientistas se aturdiram com ela, e a princípio entenderam que havia universos separados de matéria e antimatéria. Mas os avanços das pesquisas mostrou o contrário: que matéria e antimatéria se conjugam em forma de verso e reverso nas estruturas atômicas. A produção de partículas de antimatéria em laboratório, e, por fim, a produção de um antiátomo de Hélio na URSS, revelaram a possibilidade da existência de universos interpenetrados. Dois universos diferentes, de estruturas contraditórias, podem coexistir num mesmo espaço, sem que um seja normalmente percebido pelo outro. É a prova científica da duplicidade do homem, que, em si mesmo, é espírito e matéria. (...) Se num mundo de antimatéria, pode existir tudo quanto existe no mundo material, apenas em situações diferentes, e se esse mundo interpenetra o da matéria, torna-se explicável cientificamente a relação do chamado mundo dos mortos com o mundo dos vivos e vice-versa. (Revisão do Cristianismo, caps. VI e XIII.) FILOSOFIA ESPÍRITA A revelação espiritual veio pelo Espírito de Verdade, mas a ciência espírita (revelação humana) foi obra de Kardec. (Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas. Introdução.) Na brilhante definição do professor Gonzales Soriano, oportunamente citada pelo professor José Herculano Pires: “O ESPIRITISMO É A SÍNTESE ESSENCIAL DOS CONHECIMENTOS HUMANOS APLICADA À INVESTIGAÇÃO DA VERDADE”. (Introdução à Filosofia Espírita, cap. II, item 1.) A paixão kierkegaardiana interessou mais aos filósofos do que a análise kardeciana. [Mas] o Espiritismo, desprezado e escarnecido, retoma o seu lugar epistemológico na cultura atual, como a pedra rejeitada da parábola. (O Ser e a Serenidade. Lanterna de Diógenes.) O pecado de Kant foi o da dicotomia no plano do conhecimento, negar à razão a possibilidade da metafísica. (Introdução à Filosofia Espírita, cap. IV.) A razão kardeciana não tem a frieza do racionalismo científico, porque o Espiritismo é a síntese de todas as potencialidades ônticas do homem. Razão e fé, intuição e pesquisa globalizante. (Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas, cap. XI.) Essa opacidade da inteligência humana, esse embotamento da capacidade de compreensão poderia fazer-nos descrer das potencialidades do princípio inteligente se não soubéssemos que o instinto gregário do homem o leva à imitação e à repetição dos papagaios. Quando Kardec se atreveu, utilizando-se de todos os recursos de sensatez e equilíbrio, apoiando-se na cultura do séc. XIX — para não provocar reações precipitadas que lhe prejudicariam a obra — a publicar O Livro dos Espíritos, todos os anátemas da Religião, da Ciência e da Filosofia caíram sobre ele como as bombas norte-americanas sobre o Vietnã. Somente agora se abre uma perspectiva favorável, em todos aqueles campos reacionários, para uma possível compreensão do seu gigantesco trabalho de reposição das coisas em seus lugares. Mas então aparecem os que pretendem reformar, atualizar e tecnilizar as suas obras ao invés de estudá-las e aprofundar-lhes o sentido. Isso nos prova quanto necessitamos do tempo para que a mônada oculta se abra e se atualize em nós. (Agonia das Religiões, cap. V.) ... a técnica dos contrastes desaparece naquilo que Buda chamou de Nirvana e que a nossa apoucada inteligência considerou como o Nada. Kant teve razão ao localizar os limites da razão humana no momento em que cessam as contradições dialéticas. Mas nesse momento, nessa linha divisória entre o mundo real e o mundo ideal, começa a razão angélica. Os homens transformados em anjos — não com asas nem com estrelas na fronte — mas com a mente e o coração purificados, passam a ver e a compreender a realidade pela intuição direta e global. Nesse momento descobrem a perfeição do Universo, aquela perfeição que, desde o princípio, estava na concepção ideal de Deus, mas que nas hipóstases materiais tornava-se irreconhecível como a Vênus de Milo coberta de terra e lama quando a arrancaram do subsolo. O próprio tempo desaparece nesse momento. Não há mais necessidade do véu de Ísis da temporalidade para encobrir a verdade das coisas e dos seres. Mergulhamos no eterno, que não é estático e inerte como o supomos, mas tem a dinâmica e a lucidez de que o pensamento nos pode dar um vago exemplo. Kardec verificou, em suas pesquisas espíritas, que a esquematização do sensório humano, com a divisão das faculdades sensoriais em órgãos específicos e rigidamente localizados no corpo, não existe para os espíritos libertos das impressões materiais. Os espíritos percebem, vêem e sentem de maneira global, por todo o seu ser, em sintonia com toda a realidade. As deslocalizações e transferências das sensações nas práticas hipnóticas comprovam, em nosso plano, a veracidade dessa descoberta efetuada nas suas pesquisas mediúnicas. (Agonia das Religiões, cap. V.) RELIGIÃO ESPÍRITA O Espírito a que a Bíblia se refere em numerosos tópicos e que nos Evangelhos toma o nome de Espírito Santo é o Espírito de Deus em sua manifestação universal. (Agonia das Religiões, cap. VII.) A Bíblia é muito valiosa para os espiritistas estudiosos porque é o maior e o mais vigoroso testemunho da verdade espírita na Antiguidade. (Visão Espírita da Bíblia. Artigo 15.º) Reconhecendo o conteúdo espiritual da Bíblia, o Espiritismo a estuda à luz de seus princípios, em harmonia com os métodos da antropologia cultural e dos estudos históricos. (Visão Espírita da Bíblia. Artigo 4.º) A teologia espírita se estende por toda a Codificação. (O Espírito e o Tempo. Introdução Antropológica ao Espiritismo. 3.ª Parte, cap. IV, n.º 3.) (...) na elaboração tardia dos textos evangélicos, em tempos e lugares diferentes, com os dados fornecidos pelas logias (anotações de apóstolos e discípulos) ou mesmo de informações orais deturpadas pelo tempo, transfiguradas pelo sentimento de veneração que crescera através dos anos, os elementos míticos se infiltravam no relato, amoldando a realidade distante às condições mitológicas da época. (Revisão do Cristianismo, cap. I.) Somente o reconhecimento das manifestações espíritas, o estudo desses fenômenos e a aceitação racional das comunicações esclarecedoras, dadas por via mediúnica, poderiam levar ao rompimento do arcabouço literal, última forma concreta em que o espírito cristão se refugiava. (O Espírito e o Tempo. Introdução Antropológica ao Espiritismo. Segunda parte, cap. II, item 4.) A palavra espiritismo foi criada por Kardec para designar a Doutrina que ele formulou, com dados da revelação dos Espíritos Superiores, transmitidos por médiuns em suas sessões experimentais, e com os dados de suas pesquisas pessoais e das ilações que delas naturalmente tirara. Essa Doutrina, como o reconhecem todos os estudiosos sérios do mundo, constitui-se de partes sucessivas, referentes às do conhecimento: a ciência, a filosofia, a moral e a religião. Kardec sempre considerou a religião, no Espiritismo, como uma conseqüência das partes anteriores, para não confundir a Doutrina Espírita com as confusas e perecíveis teologias da época, tão perecíveis que chegaram aos nossos dias discutindo em torno de um problema sem sentido, com o desenvolvimento da teologia radical da morte de Deus. “Deus morreu!”. Essa foi a grande conclusão dos teólogos em nosso tempo. Restringindo-se à Ciência e à Filosofia Espírita, como cerne positivo da Doutrina, Kardec considerou a Moral e a Religião Espírita como derivações naturais e necessárias da nova concepção do mundo, do homem e da vida que a Doutrina estabelecia. (O Centro Espírita, cap. IV.) Para evitar o religiosismo comum e banal, Kardec explicou que a Ciência e a Filosofia Espíritas tinham conseqüências morais. Só no final de sua missão, declarou que o Espiritismo é a religião em espírito e verdade, anunciada pelo Cristo. (Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas, cap. XI.) A Ciência Espírita é um organismo vivo, de natureza conceptual, estruturada em leis psicológicas, ou seja, em princípios espirituais e racionais. Essa estrutura é íntegra, perfeita, harmoniosa, e não podemos violentar um só dos seus princípios sem pôr em perigo imediato todo o seu sistema. No Centro Espírita em que essa compreensão da Doutrina não se desenvolve, na verdade não existe Espiritismo, mas apenas um vago desejo de atingi-lo. As raízes dessa estrutura conceptual estão no Cristianismo, não em seu aspecto formal-igrejeiro, mas em sua essência evangélica, definida na Codificação Kardeciana. Os Evangelhos canônicos das Igrejas cristãs estão carregados de elementos da era mitológica e superstições judaicas. São esses elementos do passado pagão-judeu que deformaram o ensino puro de Jesus, permitindo interpretações flagrantemente contrárias ao que Jesus ensinou e exemplificou. No livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo” e no livro “A Gênese”, Kardec mostrou como podemos restabelecer a pureza das raízes evangélicas, usando a pesquisa histórica das origens cristãs, o método analítico-positivo do estudo histórico e o método lógico-comparativo dos textos. Sem a pureza das raízes, não teremos a pureza dos textos. E cairemos facilmente nas trapaças ou nas ilusões dos mistificadores encarnados e desencarnados. (O Centro Espírita, cap. I.) O mito do terceiro milênio, que muitos espíritas aguardam com a ingenuidade dos judeus que ainda esperam o messias e dos cristãos que aguardam a volta de Jesus entre as nuvens, com revoadas de anjos ao redor, enquanto catástrofes punitivas devastarão o planeta, não passa de interpretação errônea e supersticiosa de um arquétipo coletivo: o anseio dos homens por um mundo feliz, despertado nas criaturas pela realidade longínqua das realizações ainda em lenta progressão na Terra e já atingidas no Cosmos por mundos mais antigos que o nosso. (O Centro Espírita, cap. XI.) É tempo de compreendermos que Jesus de Nazaré não voltou das nuvens de Betânia, mas em espírito e verdade, para conduzir-nos a toda a Verdade prometida. (Revisão do Cristianismo. Prefácio.) FIDELIDADE AO PENSAMENTO KARDECIANO Poucas obras revelam uma compreensão tão clara e profunda da natureza orgânica do universo como a Codificação. É por isso, e não por sectarismo e fanatismo, que não podemos fazer concessões ao passado no campo das atividades doutrinárias. Avançamos para um novo mundo que só o Espiritismo pode modelar, pois só ele revela condições para isso em sua estrutura doutrinária. (Agonia das Religiões, cap. XIII.) A obra de Kardec é a bússola em que podemos confiar. Ela é a pedra de toque que podemos usar para aferir a legitimidade ou não das pedras aparentemente preciosas que os garimpeiros de novidades nos querem vender. Essa obra repousa na experiência de Kardec e na sabedoria do Espírito de Verdade. Se não confiamos nela, é melhor abandonarmos o Espiritismo. Não há mestres espirituais na Terra nesta hora de provas, que é semelhante à hora de exames numa escola do mundo. Jesus poderia nos responder, diante da nossa busca comodista de novos mestres, como Abraão respondeu ao rico da parábola: Por que eu deveria mandar-vos novos mestres, se tendes convosco a codificação e os evangelhos? (Mediunidade. Conceituação da Mediunidade e Análise Geral dos Seus Problemas Atuais. Cap. III.) Há mais serenidade no homem que defende com entusiasmo e calor os seus princípios, do que no indivíduo falacioso, que procura serenamente as suas evasivas. É mais sereno o murro de uma verdade na mesa, do que o palavreado untuoso da mentira na boca de um santo de artifício. (O Ser e a Serenidade, cap. II.) Em 26 de abril de 1935, Herculano recebeu a inspiração do que chamou “Trilogia do Serenista” (o amante da serenidade). Em 1965, inseriu-a no livro de sua tese existencial: O Ser e a Serenidade, cap. I. Trata-se de um roteiro magnífico para a evolução integral do ser, que ele cumpriu muito bem: 1.º) PROCURA SEMPRE A PERFEIÇÃO. 2.º) NUNCA TE DEIXES ABATER. 3.º) ELEVA-TE SEMPRE ÀS CIRCUNSTÂNCIAS. |